OFRN - Old Family Red Nose, uma linha profundamente preservada

Penso ser oportuno escrever este artigo, já que muita confusão é feita em torno desta vertente, principalmente nas redes sociais, onde não há muita confiabilidade de conteúdo, muitos destes “textos” citam fontes que dificilmente serão consultadas pelo leitor, principalmente pela questão do idioma (tradutores on-line não traduzem expressões técnicas ou gírias, muito menos o contexto) ou ainda, citam links quebrados que abrem páginas que não existem mais.

Tal fato é um problema, somando-se a isso uma interpretação pessoal da fonte citada pelo escritor, que raramente será consultada, teremos como resultado um texto supostamente técnico mas sem argumentação consistente.

O próximo artigo que será escrito após este tratará sobre a história dos OFRN no Brasil, que será relatada citando todas as fontes, sem omitir nomes, seja de pessoas ou de cães. No decorrer da escrita deste texto deixarei o gancho que será retomado no próximo.

Deixando as interpretações pessoais de lado, vamos aos fatos acerca dessa linha, já consagrada no meio APBT há bastante tempo. E essa consagração não foi algo mágico que ocorreu da noite para o dia, mas sim fruto do trabalho de criadores que buscaram selecionar cães funcionais dentro da base genética disponível naquele momento histórico. Mas obviamente nem todos seguiram o mesmo caminho.

Um autor bastante citado em textos nas redes sociais (e raramente consultado na fonte original), é Richard F. Stratton. Em 2007 comprei o livro The World of The American Pit Bull Terrier deste mesmo autor, tendo lido além do livro, vários outros textos escritos por ele desde então. Um desses artigos de Stratton ocasionalmente citados é “A Modern Champion of the Old Family Red Nose Strain”, o qual relata a história de um cão específico.

Curioso é que muitos dos que escrevem tais textos, além de interpretar de forma pessoal o que Stratton escreve, o fazem de maneira anacrônica, apenas como forma de dar crédito à sua própria opinião. Uma tentativa de dar credibilidade ao que está sendo escrito, na confiança que o leitor não irá consultar o texto integral ou mesmo uma parte dele. Quando Stratton fala nesse artigo de linhas modernas, ele se referia a um determinado grupo de cães dos anos 1920, 1930 e 1940, que fique bem claro.

Deixo aqui o link do texto original integral na própria página de Stratton, para que o leitor consulte:

http://www.strattonpitbull.com/a-modern-champion-of-the-old-family-red-strain/

Sendo assim, sobre o mesmo artigo de Stratton, e talvez o ponto-chave da questão, um trecho bastante recorrido para tentar colocar no mesmo patamar dos nossos ancestrais OFRN, os quais invariavelmente eram selecionados pela função, todo e qualquer cão de hoje (lembrando que o termo “moderno” usado por Stratton neste artigo é um termo que se refere a 5 cães dos anos 20, 30 e 40), é a seguinte passagem:

“There was a time when adherents of the line were frustrated that any dog that showed that coloration was considered a member of the OFRN line. To be considered a member of that strain, the common belief was that Centipede, Lighthouse Vick, Owen's Tanner, Harvey's Red Devil, and Cyclone should be in the pedigree”.

Tradução: “Houve um tempo em que aqueles que estavam aderindo à linha ficaram frustrados, pois qualquer cão com aquela cor era considerado um membro da linhagem OFRN. Para ser considerado um membro daquela estirpe, o sentimento comum era que Centipede, Lighthouse Vick, Owen's Tanner, Harvey's Red Devil e Cyclone deveriam estar no pedigree”.

Observe meu caro leitor, em nenhum momento Stratton afirma que não basta estarem presentes os nomes citados no pedigree de um cão para que ele obrigatoriamente seja um autêntico OFRN. De fato ele não faz nenhuma menção a isso, na verdade ele diz justamente o contrário (inclusive em consonância com outros artigos que ele mesmo escreveu, que citarei na sequência): “Houve um tempo em que aqueles que estavam aderindo à linha estavam frustrados, pois qualquer cão com aquela cor era considerado um membro da linhagem OFRN”. O trecho é bem claro, aqueles que estavam aderindo aos vermelhos estavam frustrados, obviamente pelo fato de muitos cães vermelhos estarem sendo considerados OFRN's, mesmo não sendo. Stratton prossegue: “Para ser considerado um membro daquela estirpe, o sentimento comum era que Centipede, Lighthouse Vick, Owen's Tanner, Harvey's Red Devil e Cyclone deveriam estar no pedigree”. Assim, tal fato era um “sentimento comum”, ou seja, sentimento daqueles que não conheciam de fato a história da linha. Tentar interpretar de outra forma o que o autor realmente quis dizer leva à divulgação de textos parciais mencionados no início. Seguimos com outro trecho utilizado em textos duvidosos pelas redes sociais na tentattiva de justificar a tese infundada de que qualquer cão atual de qualquer cor descende de um OFRN:

“The point I am trying to make is that all of those dogs were bred so much that any of the modern day dogs that show that coloration are bound to have those dogs back in their pedigrees — and so do dogs with other colorations, but they aren't held up as representatives of the strain!"

Tradução: “O ponto em que quero chegar é que todos aqueles cães foram cruzados tanto que quaisquer dos cães modernos que tenham aquela coloração estão fadados a ter tais cães como ascendentes em seus pedigrees – e também cães com outras colorações, mas eles não são considerados como representantes da linha!”

Ora, quando ele cita “cães que foram cruzados tanto”, se refere a Centipede, Lighthouse Vick, Owen's Tanner, Harvey's Red Devil e Cyclone, 5 cães das décadas de 20, 30 e 40, cujos filhos “bastardos” foram miscigenados com outras linhas, que se misturaram a outras e assim por diante, de modo que desde o início dos anos 1900 até o século XXI houve considerável perda genética no caminho (com exceção de poucos criadores, devido aos quais essa linha permanece até hoje – fato sequer mencionado em textos dúbios). Um fato importante a se destacar é que Stratton é mais conhecido como escritor do que como criador e que se não fosse o trabalho de alguns poucos e bons criadores em preservar essa linha, provavelmente já estaria extinta. Desnecessário também indicar que a cor foi sim um fator preponderante que culminou com a denominação da linha justamente em função de seus traços vermelhos marcantes, além das inúmeras demais qualidades acima da média dos cães daquele tempo, caso contrário o termo “RED” seria da mesma forma desnecessário.

Awesome Buck

Na mesma direção, seria então muito simples, forçando outra interpretação do que Stratton escreveu, adquirir um cão de qualquer linha que não um legítimo OFRN, pois segundo esta mesma interpretação equivocada, pelo fato envolvendo 5 cães nos anos 20, 30 e 40 terem cruzado muito, em meados dos anos 2000 qualquer APBT seria um legítimo OFRN. Óbvio que não. Da mesma forma, não é um título da ADBA ou qualquer outro título que torna um cão OFRN. Para isso se recorre à genealogia do cão, preservada por um número bastante restrito de criadores sérios. Nos dias de hoje, para se encontrar um bom OFRN é preciso conhecer muito bem a história da raça e seus principais criadores, resumindo – é preciso saber onde procurar e pagar o preço que vale um autêntico Old Family Red Nose.

Outra afirmação absurda é que todo APBT vivo atualmente, seja qual for sua cor, não importando sua genealogia, tem sangue OFRN em seu pedigree, pois segundo essa "teoria", o "vermelho é recessivo". Tal "tese" viola não só a história dos Old Family, mas contraria também princípios básicos de genética, consagrados nas Leis de Mendel. Qualquer criador por mais singelo que seja deve ter isso em mente, mas com o propósito de esclarecer o público em geral, resumirei os princípios das Leis de Mendel.

Sabemos que os alelos são genes que ocupam o mesmo lugar (locus) em cromossomos homólogos. Eles podem ser definidos também como a forma alternativa de um gene, uma vez que determinam a mesma característica, entretanto não da mesma forma. Esses alelos podem ser tanto dominantes quanto recessivos e assumir relações de DOMINÂNCIA ou RECESSIVIDADE nas células somáticas, nas quais os alelos apresentam-se aos pares.

ALELO DOMINANTE: os alelos dominantes são aqueles que conseguem DETERMINAR UM FENÓTIPO, mesmo quando aparecem em dose simples. Isso significa que, quando analisamos um par de alelos para uma característica, se apenas um deles é um alelo dominante, tal característica é expressa.

Imagine, por exemplo, um alelo B que determina a cor preta na pelagem de cães, e b que determina a pelagem vermelha. B é um alelo dominante e, portanto, indivíduos BB e Bb apresentarão pelagem preta.

ALELO RECESSIVO: os alelos recessivos, diferentemente dos dominantes, necessitam estar aos pares para a característica expressar-se. Isso significa que em indivíduos heterozigotos o alelo recessivo não determinará o fenótipo.

Imagine o mesmo exemplo anterior em que um alelo B determina a cor preta na pelagem de cães, e b determina a pelagem vermelha. Indivíduos vermelhos serão apenas aqueles que apresentarem genótipo bb! Isso significa que em cruzamentos entre cães pretos homozigotos (BB) e cães vermelhos (que sempre serão bb) toda a prole, ou seja, 100% dos filhotes será de cães pretos (BB ou Bb)!

EXEMPLO DE DOMINÂNCIA X RECESSIVIDADE: em seus estudos, Mendel trabalhou com características de ervilhas, como a cor das sementes. Ele observou que, cruzando plantas puras para sementes verdes com plantas puras para a semente amarela, obtinha-se uma geração com plantas 100% amarelas. Cruzando indivíduos dessa geração, conseguiam-se 75% das plantas amarelas e 25% das plantas com sementes verdes. Ele considerou, então, que a cor amarela era dominante e a verde, recessiva.

Com o intuito de ilustrar o conceito, farei a substituição das cores das ervilhas pela pelagem dos cães, continuando com os mesmos exemplos citados acima.

Nessa situação, temos um cruzamento entre cães BB (preta) x bb (vermelha). Nesse caso, todos os descendentes serão Bb (preta). Cruzando indivíduos Bb x Bb, o resultado do cruzamento será: BB, Bb, Bb, bb, ou seja, 75% dos cães serão PRETOS e 25% VERMELHOS. Observe que, nesse exemplo, verificamos que o alelo B para CÃES PRETOS é dominante, pois indivíduos BB e Bb são PRETOS. Já o alelo b é recessivo, pois apenas cães bb são VERMELHOS.

Além disso, se fosse possível concordar com essa "opinião pessoal" de que todo APBT de hoje, seja qual for sua genealogia ou sua cor, descende de um OFRN, estaríamos jogando no lixo o próprio trabalho de William J. Lightner, como ficará claro a seguir. Agora sim, falando modernamente, com essa interpretação errada do que Stratton escreveu estaríamos jogando no lixo também o trabalho de criadores que magistralmente mantiveram essa fantástica linha de sangue preservada, como Dan Gibson por exemplo, D. M. Norrod, John & Linda High, Patty Ballard, Carol Gaines, Kimberly Allison, John Collins, entre outros e não menos célebres verdadeiros guardiões da estirpe. Criadores que ao contrário de outros que não se preocuparam com a preservação dos OFRN's, mas sim com sua própria promoção pessoal, seguiram pelo caminho oposto dedicando suas vidas em prol dos autênticos vermelhos.

Falando em Dan Gibson, outro guardião dos OFRN's, este importante mantenedor da linhagem, através do criador César Pimenta, Rising Force Kennel, teve alguns de seus magníficos produtos trazidos ao Brasil, como é o caso do saudoso RFK Pepper of Canchin, provavelmente o último descendente daqueles cães Gibson trazidos por César a nos deixar...

Segue pedigree com foto abaixo – (mas isso será tema do próximo artigo)

Gancho: RFK Pepper of Canchin, cresceu e morreu com o criador Wagmar de Souza, que o ganhou ainda filhote de presente do amigo e também criador César Pimenta. Pepper notoriamente manteve todas as características da linha, como será comentado no próximo artigo, mais uma prova que o OFRN é uma linha profundamente preservada (claro que não por todos os criadores, ao contrário, por um grupo pequeno) e que não se encontra em qualquer lugar. Não é qualquer cão de qualquer cor que representa os Old Family Red Noses.

http://www.apbt.online-pedigrees.com/modules.php?name=Public&file=printablePedigree&dog_id=191847

Finalizando essa primeira análise, em nenhum momento Stratton escreveu que esses descendentes * “bastardos” dos 5 cães citados acima, os quais viveram nos anos 20, 30 e 40, são os mais indicados a serem considerados representantes dos legítimos OFRN, que isso fique muito claro.

* Esse termo se aplica em especial a Centipede, cujo dono era membro de uma banda famosa e vivia viajando, deixando o cão com outras pessoas e não se importando que o cão fosse cruzado como o "fiel depositário" bem entendesse - com relação aos demais cães Stratton se limita a dizer que cruzaram muito, sem esclarecer se foram cruzamentos planejados ou não.

Bagman

Para reforçar minha tese, citarei outro artigo do mesmo autor que está em consonância com minha análise sobre a profunda preservação da linha OFRN até os dias atuais e também em concordância com o que o próprio Stratton escreveu. Trata-se do artigo “Story of The Old Family Reds”.

O artigo integral disponibilizo abaixo para consulta do leitor, mas neste estudo em particular citarei os trechos mais relevantes à análise:

https://www.southerninfernokennels.com/ofrnhistory.htm

“Ours is a breed that has a definite mystique. Part of it, no doubt, stems from the fact that it is an old breed and deeply steeped in tradition. Old strains are a particularly fascinating part of this tradition, and the Old Family Red Nose is one of the better-known old strains”.

Tradução: “A nossa raça tem uma mística definitiva. Parte disso, sem dúvida, reside no fato que é uma raça antiga, e profundamente calcada na tradição. Linhas antigas são particularmente parte fascinante dessa tradição, e o Old Family Red Nose é uma das mais conhecidas linhas antigas”.

Claro e transparente, sem mais.

Corroborando o raciocínio correto, segue outro trecho:

“The first big splash made by the red noses was back around 1900 when the great breeder William J. Lightner, utilizing Old Family Red bloodlines, came up with some red-nosed dogs that really made a name for themselves. Now Lightner once told me that he did not breed for that red-nosed coloration. In fact, he did not even like it and he only put up with it because the individual dogs were of such high quality. Eventually Lightner gave up the red-nosed strain when he moved from Louisiana to Colorado, where he came up with a new strain that consisted of small dark-colored dogs with black noses. He had given up on the other strain because they were running too big for his taste and because he didn't like the red noses”.

Tradução: “O primeiro estardalhaço realizado pelos red noses foi por volta de 1900 quando o grande criador William J. Lightner, utilizando linhas OFRN, apareceu com alguns cães red nose que realmente fizeram seus nomes por si sós. Uma vez Lightner me disse que ele não criava por causa daquela coloração vermelha da trufa. Na verdade, ele nem gostava dessa cor e apenas seguiu com essa cor porque os cães individualmente eram realmente de alta qualidade. Eventualmente Lightner abandonou a linha red nose quando mudou-se de Louisiana para o Colorado, onde apareceu com uma nova linha que consistia de cães pequenos e pretos com nariz preto. Ele havia desistido da outra linhagem por que ela estava se desenvolvendo muito rápido para o seu gosto e pelo fato dele não gostar dos red noses”.

Observe estimado leitor, que houve grande repercussão causada pelos vermelhos pois poucos cães trazidos pelas mãos de um único dogman “fizeram seus nomes por si sós”. Stratton prossegue afirmando que Lightner havia desistido dos OFRN pelo fato de estarem se desenvolvendo muito rápido, e não por serem cães que perderam sua aptidão ou deixaram de realizar sua função. Que isso seja ressaltado mais uma vez. Ao contrário, estavam superando suas expectativas. O mais interessante é que Lightner não gostava da cor, mas ela se tornou a marca registrada da estirpe, juntamente com todas as outras qualidades pelas quais os cães ficaram mundialmente conhecidos, a ponto de compor a própria expressão que a denomina.

Wallace's Bad Red

Da mesma forma neste artigo, específico sobre os OFRN's, em nenhum trecho Stratton escreve a respeito de cães que não têm em sua genealogia exemplares OFRN (com exceção do plantel inicial de Bob Wallace, problema que foi sanado posteriormente com a aquisição dos 7 exemplares puros, quando do resgate da linha quase extinta), Stratton também não afirma que os OFRN's foram selecionados apenas em função da pelagem (lembrem-se que Lightner nem gostava da cor e só permaneceu nela pela qualidade dos cães), e menos ainda que seriam estes cães “bastardos” do artigo anterior os verdadeiros OFRN. Stratton nunca escreveria algo assim, pois contrariaria tudo o que ele escreveu até hoje sobre Old Family Red Noses. Os autênticos OFRN em nenhum momento, como escreveu Stratton, deixaram de ser selecionados pela função, sem falar no contexto histórico, não menos importante.

Para encerrar definitivamente a questão, selecionei um parágrafo realmente magistral, para concluir todos meus argumentos expositivos desenvolvidos até aqui, principalmente com muito respeito pelos verdadeiros “guardiões” de uma das mais finas linhagens APBT desenvolvidas até hoje. Afirmar que qualquer cão de qualquer cor descende dos OFRN seria um grande insulto e uma tremenda falta de consideração, jogando em uma vala comum criadores relaxados como o próprio Stratton afirmou serem os principais responsáveis pela quase extinção da estirpe, e criadores que selecionaram os melhores exemplares durante anos e anos de dedicação e planejamento. Meu caro leitor, delicie-se com a cereja do bolo:

“Another breeder who was almost synonymous with the red-nosed strain was Bob Wallace. However, Bob's basic bloodline was not pure Old Family Red Nose. But in the late 40's he was looking for the red-nosed strain in order to make an "outcross." (Bob was a scrupulously careful breeder who planned his breedings years in advance). Unfortunately, he found that the strain was nearly gone, most of it having been ruined by *careless breedings. He managed to obtain seven pure red-noses of high quality whose pedigrees he could authenticate. The strain was subsequently saved for posterity and in the 1950's became the fashionable strain in Pit Bull circles. In fact, it was Bob Wallace himself who wrote an article in 1953 called [There Is No Magic in Red Noses] in which he tried to put a damper on the overly enthusiastic claims being made by some of the admirers of the strain. No more fervent admirer of the Old Family Reds ever lived than Wallace, but he obviously felt that the strain could stand on its own merits”.

Tradução: “Outo criador quase sinônimo de OFRN foi Bob Wallace. Entretanto, a linha base de Bob não era formada de puros Old Family Red Nose. Mas no fim dos anos 40 ele estava procurando pelos red nose para realizar um "outcross". (Bob era um escrupuloso e cuidadoso criador que planejou seus cruzamentos com anos de antecedência). Infelizmente ele descobriu que a estirpe estava quase extinta, sendo arruinada principalmente por *cruzamentos mal planejados. Ele manobrou para conseguir sete red noses puros de alta qualidade cujos pedigrees ele podia autenticar. A linhagem foi subsequentemente salva para a posteridade e nos anos 1950 tornou-se a linha da moda nos círculos da raça. Na verdade, foi o próprio Bob Wallace que escreveu um artigo em 1953 chamado [Não há mágica nos red noses], no qual ele tentou abafar as alegações excessivamente entusiásticas feitas por alguns dos admiradores da linha. Nenhum admirador mais fervoroso dos OFRN do que Wallace jamais viveu, mas ele obviamente sentiu que a linhagem poderia permanecer por seus próprios méritos”.

* cruzamentos descuidados são feitos por criadores relapsos.

Passagem magistral que lança por terra qualquer tentativa de desmerecer os fantásticos vermelhos e também a intenção de colocar no mesmo nível qualquer cão da atualidade com a linhagem OFRN. Os Old Family Reds e todas as suas incríveis características foram salvas para a posteridade. E afirmo mais uma vez, este trabalho de resgate não foi um passe de mágica, mas foi algo sério e consistente conquistado através de gerações de criadores abnegados. Não podemos permitir que isso seja banalizado, por quem quer que seja.

Certamente há bons OFRN's hoje como havia antigamente, bem como ainda há cães incríveis a serem encontrados em canis que tradicionalmente preservaram cães com todas as características ancestrais, no entanto não é em qualquer lugar que se encontra, especialmente quando não se sabe onde procurar.

Rodrigo Di Luca

2019/12/23

* Durante a pesquisa para compor o próximo artigo, com grata satisfação encontrei um artigo escrito por E. L. Mullins, publicado no antigo site do Rising Force Kennel, com conclusão da criadora Tatiana Pimenta, esposa do criador César Pimenta, o qual comprova a informação do artigo anterior sobre a profunda preservação dos Old Family Reds e que transcrevo abaixo:

THE "OLD FAMILY RED NOSE" DOGS - by E. L. Mullins

"Primeiramente, este texto não é uma resenha. Possivelmente não poderei dizer nada a respeito dos “Old Family Red Noses” que já não tenha sido repetido centenas de vezes anteriormente. Portanto, este texto é apenas mais um registro da história que nos foi passada e uma reintrodução a uma parte muito significativa da história do American Pit Bull Terrier.

Quando nós discutimos a origem dos “Old Family Red Noses”, na realidade estamos discutindo os cães originais criados por homens como William J. Lightner e Con Feeley. Foi por volta de 1914-1916 que Red Howell, Al Dickson e Joe Peace ficaram com cães das primeiras ninhadas de Lightner's Vick e Lightner's Pansy. Quando começou a Primeira Guerra Mundial, Joe Peace e Al Dickson foram recrutados e Red Howell ficou com os cães. Ele vendeu alguns cães, porém a grande maioria foi deixada em mãos de pessoas capazes e em quem poderia confiar. Nessa época, eles não eram conhecidos por nenhuma denominação em particular. O termo “Red Nose” nunca tinha sido utilizado para descrever uma linhagem em particular. A Dan McCoy seria, mais tarde, atribuída a criação da expressão “Old Family Red Nose” para descrever esses cães como uma linhagem distinta do American Pit Bull Terrier. Algum tempo depois a história nos legou a ninhada de Ferguson's Centipede, Hemphill's Golddust, Morris' Pinkie e Howell's Banjo, bem como seu parente próximo Williams' Cyclone.

Robert H. Hemphill, juntamente com Red Howell, foram ao canil de Harvey e Owens em Amarillo, Texas, e, em parceria, adquiriram Golddust. Golddust foi mais tarde para as mãos de Harry Clark e daí para D.A. McClintock, onde ele morreu. Earl Tudor obteve Centipede. Centipede foi emprestado para Red Howell. Mais tarde, Tudor vendeu Centipede para Dave Ferguson. Earl Tudor também foi o dono de Cyclone e depois o vendeu para Jim Williams. Para muitos, foi o sucesso obtido por Earl Tudor e Red Howell com esses cães que tornou a linhagem tão popular. Foi nessa época que se começou a ouvir o termo “Red Nose” como uma linha de sangue.

Observe-se que nem todos os exemplares dessa família eram red noses. Algumas pessoas ainda acham que o sangue dos cães de Con Feeley era muito mais “red nose” do que o dos cães Lightner. É dito que W.C. Roper criou alguns dos melhores cães red nose, enviados para ele por Jim Williams e Bob Wallace. I.D. Cole, do Arizona, também criou cães de altíssimo calibre, a partir de Slattery's Mike e Williams' Blade. I.D. Cole também possuiu  Cole's (Fulkerson's) Spook, um neto de Lightner's Spook. Contudo os red noses nunca foram controlados por um indivíduo ou grupo em particular. Muitos dos cães red nose foram produzidos através de cruzamentos diferentes. De fato houve muitos criadores e admiradores dos "Old Family Red Noses". W.J. Lightner, Con Feeley, J.P. Colby, D.A. McClintock, Dan McCoy, Harvey e Owens, Ferguson, Ferrel, Conklin, Anderson, Burgeois, Plemmons, Dickinson, Hanson, Williams, Roberts, Cole, Leo Kinard, Ed Crenshaw, Joe Beal, Jake Wilder, apenas para nomear uns poucos. Mas os dois principais ciadores mais frequentemente associados com os "Old Family Red Noses" foram Robert H. Hemphill Jr. e Robert Foster Wallace.

Robert Hemphill era amigo de Earl Tudor desde 1914. Ele se interessou pelos cães Lightner e começou uma extensiva pesquisa nos anos 20 para localizar e obter cães de alta qualidade daquela linhagem.

Foi Dan McCoy que recebeu a informação de um francês de nome Bourgeois, que vivia na Lousiana. Ele recebera vários cães diretamente de William Lightner e durante muitos anos ele acasalou e manteve esses cães estritamente para sua satisfação pessoal. Bourgeois foi extremamente bem sucedido na preservação dos red noses. Bob Hemphill foi com Dan McCoy para Louisiana, com a ajuda de Gaboon Trahan compraram vários cães de Bourgeois. Hemphill manteve apenas os cães de mais alto calibre e começou a neles basear sua criação. Seus primeiros anúncios mostram que ele vinha criando "Old Family Red Noses" desde 1927. Por toda sua vida Bob Hemphill permaneceu dedicado à raça e fiel aos "Old Family Red Noses". Antigos anúncios mostram que por toda sua vida foi grande sua devoção em preservar a linhagem pura. Até 1966 ele anunciou exclusivamente "Old Family Red Noses". A partir daí seus anúncios indicam a adição de um oitavo ou um sexto de sangue Dibo.

Sobre os cães Lightner, muitos assumem erradamente que W.J. Lightner criava apenas red noses, possivelmente por causa de sua forte associação com eles. Aqueles que realmente têm pesquisado sabem que isso não é verdade. Ele também criou cães pretos e escuros de excelente qualidade. O ponto mais alto de Lightner como criador é demonstrado através de dois cães: Hall's Searcy Jeff (que pertenceu a Jim Searcy, Bob Hemphill, Dr. Hall e Bob Wallace), que tinha a reputação de ser o melhor red nose que poderia existir; e Colorado Imp, de Jeff Runyon, de idêntica reputação em relação aos cães pretos. Ambos os cães descendiam da mesma base do mesmo criador: William J. Lightner. Quando esses dois cães se encontraram em Medicine Park, Oklahoma, em 1937, eles provaram que Lightner era realmente um dos maiores criadores de todos os tempos. Depois daquele encontro, Bob Wallace disse a Hemphill que ele compraria aquele cão (Searcy Jeff) mesmo que ele lhe custasse mil dólares! Ainda no ano de 1937, quando Bob Hemphill deixou aquela parte do país, ele dividiu seus cães com Red Howell e Dr. Hall. Dr. Hall recebeu Searcy Jeff, de quem Bob Wallace o comprou mais tarde. Também em 1937 Bob Hemphill enviou uma cadela para William Lightner, Lightner's Pumpkin, a qual aparece no pedigree de muitos dos “Old Family Red Noses” modernos.

Bob Wallace é também lembrado na história por sua associação e grande sucesso com os “Old Family Red Noses”. Contudo, há duas concepções errôneas a respeito dele que devem ser esclarecidas. Uma é que Wallace e Hemphill eram sócios. Eles não eram. Ambos compartilhavam um profundo respeito pelos red noses e ambos foram dedicados a manter a linhagem pura. Ambos foram criadores bem sucedidos em mantê-la pura, forte e bela. Eles eventualmente compartilharam cruzamentos comuns e acasalaram seus cães entre si, mas eles não eram sócios.

Com a idade de 13 anos, Bob Wallace se tornou amigo do “old timer” Ben Flannery. Por toda sua adolescência Wallace possuiu cães de alta qualidade. Mais tarde, obteve cães da linha de Dugan's Pat. A segunda concepção errada é que Wallace criava primeiramente red noses. Seus cães originalmente apresentavam uma grande variedade de cores e eram extremamente talentosos. Embora esses cães não mostrassem essa característica, eles possuíam uma boa porcentagem de sangue red nose. Uma das primeiras fêmeas que formaram o alicerce de sua criação foi Shipley's Penny. Era uma descendente direta dos antigos cães Corcoran. Wallace sempre considerou Corcoran um dos maiores criadores de todos os tempos. Outros grandes cães que são considerados a base dos Wallace são Ferguson's Centipede, Hall's Searcy Jeff e o famoso Wallace's Tony. Tony era seu orgulho como criador. Wallace cruzou Penny com Centipede e produziu três grandes cães: Stinger, Skorpion e Spider. Mais tarde, ele acasalou Searcy Jeff com Spider e produziu Wallace's Madam Queen. Quando ele acasalou Madam Queen com Tony, produziu um cão famoso para sempre: Wallace's King Cotton. Outros cães famosos que aparecem em muitos pedigrees dos “Old Family Red Noses” modernos são Wallace's Red Rustler, Red Rock e Red Rube, bem como a famosa reprodutora Wallace's Red Raven.

Os anúncios antigos de Bob Wallace durante os anos 40 claramente refletem a criação e manutenção das antigas famílias Corcoran e Lightner. A maioria dos anúncios eram apresentados em negrito. Ainda naquela década, Bob Wallace começou a procurar por red noses para outcross com seus cães. Ele havia percebido que seus cães estavam tão fechados quanto poderiam ser para serem utilizados produtivamente. Quando começou sua procura, ele percebeu que os “Old Family Red Noses” puros estavam quase extintos. A maioria das linhas foram arruinadas ou contaminadas por cruzamentos descuidados. Contudo, ele finalmente localizou e obteve sete red noses puros e de alta qualidade, cujos pedigrees ele pode autenticar.

Bob Wallace era um homem de grande caráter e honestidade e sempre declarava que “não existe nenhuma mágica nos “Old Family Red Noses”, que eles eram apenas uma boa linha como tantas outras. Os cães red nose possuem inteligência, talento e personalidade para se estabelecerem por seus próprios méritos. Bob Wallace ficou na história como um dos maiores criadores de todos os tempos. Ao longo de todos os seus anos como criador, é sabido que Wallace vendeu menos de uma dúzia de cães. Ele dizia que não vendia cães por questão de princípios. Os resultados dessa dedicação à raça são ainda aparentes e apreciados nos pit bulls da atualidade.

Esta foi uma breve introdução aos “Old Family Red Noses” e alguns dos homens dedicados à sua preservação. Está longe de ser completa ou conclusiva, pois seu significado não pode ser resumido em uns poucos parágrafos. Volumes inteiros poderiam ser escritos sobre os “Old Family Red Noses” e seu lugar na história do American Pit Bull Terrier".

Como uma linhagem, os Old Family Red Noses são o que de mais tradicional se pode encontrar na atualidade. Aqui no Rising Force Kennel você pode adquirir os mais tradicionais OFRN disponíveis no mundo, a partir de matrizes selecionadas por um dos mais respeitados criadores americanos. Seja por sua tenacidade incomum, seja pelo fato de que alguns dos principais criadores da história tenham contribuído para o seu desenvolvimento, eles ainda hoje se mantêm à altura do que foi dito por Shakespeare há quase cinco séculos:

"That island of England breeds very valiant creatures".

Gibson's Hemphill Ono and RFK Lina

 

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